Um psicoterapeuta a projectar uma ponte?

A minha experiência em coaching psicológico e psicoterapia individual e com grupos, faz-me chegar à conclusão que a aprendizagem da facilitação destes processos se assemelha bastante ao processo de aprendizagem do andar.

Para quem vê um adulto comum a andar parece uma manifestação da simplicidade. Porém, ao pensar assim, esquece toda uma quantidade enorme de momentos de aprendizagem acompanhados de várias quedas de rabo no chão. Quanta coordenação de terminações nervosas e músculos para conseguir o equilíbrio pretendido e poder efectivamente deslocar-se de um ponto ao outro do espaço mantendo o equilíbrio.

O ser humano está em contínuo desenvolvimento e não poucas vezes vai caindo ao longo do percurso por ainda não ter descoberto a simplicidade que lhe permite ser quem é e atingir os seus objectivos de forma optimizada. Porém, esta simplicidade aparente está ligada a uma complexidade enorme interior, de acontecimentos nervosos e organísmicos em contínuo, de muitos erros e consequentemente muitas aprendizagens.

Um psicoterapeura, um coach, tem que traduzir a complexidade de um esquema de reforço positivo aleatório, uma hierarquia de valores, um conflito interior, numa simplicidade de momento a momento na devolução ao seu cliente. O que parece simples, é na verdade, cimentado em complexidade e muito grande apreendida por muito tempo de aprendizagem formal, informal e de experiência.

A naturalidade que resulta da experiência e formação de profissionais credenciados traduz-se numa aparência de simplicidade, quando na verdade necessita muita formação para ser alcançado.

Confiaria num psicoterapeuta para projetar uma ponte? Então porque é que tanta gente confia em pessoas sem formação específica para realizar actos psicológicos?

Uns objectivos podem ser melhores que outros.

De como os objectivos podem destruir uma vida. De como os objectivos podem reconstruir uma vida. Lembro-me de um professor que contava a história de um cliente que lhe falava assim:   – Sabe? Eu acho que a minha vida foi… a determinada altura olhei para um arranha céus e disse: “Vou subir este arranha-céus”. Pus a escada a jeito e fui subindo com gotas de suor e dores por todo o corpo, até ao topo. Chegado lá cima, olhei para baixo e pensei para mim mesmo: “Acho que subi o arranha-céus errado!”. Outro professor contava de um cliente que tinha chegado a todos os seus objectivos (carro de topo, carreira de topo, salário de topo e casa de topo) e mergulhou numa depressão profunda, lutando para redescobrir um sentido na sua vida. Há objectivos mais métricos como resultados de vendas, ou volume de produção que são mais fáceis de visualizar. No entanto, entrevistas com idosos todos dizem que gostariam de ter passado mais tempo com a família e menos no trabalho. Mais do que perseguir objectivos sem critério é preciso a coragem de percebermos, para começar, quais são realmente os objectivos que queremos  alcançar, escutarmo-nos a nós próprios e percebermos realmente qual é o sentido na nossa vida.

 

Viver aqui e agora.

Viver no aqui e agora é difícil em numerosas alturas na nossa vida. A ansiedade em que vivemos impele-nos muitas vezes a uma projecção no futuro por forma a controla-lo e a diminuir a probabilidade de acontecerem as coisas indesejadas que imaginamos virem na nossa direcção.

É fácil dizer “vive no aqui e agora” mas a dificuldade real desta prática faz com que as pessoas se vejam remetidas a maior parte das vezes para as preocupações que as assolam.

Como poderemos então avançar a experiência do aqui e agora?

Uma das abordagens é a abordagem da gratidão. A gratidão é um movimento de prolongamento no aqui e agora. Quando agradecemos o que temos, podemos contemplar a nossa realidade e usufruir dela por mais tempo. O facto de muitas vezes nos queixarmos, afasta-nos do momento presente. Do “aqui” porque estaríamos melhor num outro lugar e do “agora” porque nos projectamos num futuro que vai dar melhor conta das nossas necessidades.

Outra das abordagens é a da confiança. Todos os grandes mestres da humanidade que conheço sugerem que não nos preocupemos com o futuro. Uma das razões que vejo é que, em primeiro lugar, nós não fazemos a mínima ideia das variáveis que mudaram no futuro que projectamos (convenhamos que a nossa capacidade de prever o futuro é muito limitada) e em segundo lugar, e talvez a razão mais importante, será o nosso desconhecimento dos recursos que teremos disponíveis (pessoais e externos) quando o tal futuro que nos apoquenta tomar forma finalmente.

Não digo que viver o aqui e agora é fácil, que estar no presente é evidente, mas creio que vale a pena ir tentando e aprofundar as outras dimensões que podemos explorar em relação a este tema.